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Planejamento familiar

Lembro-me da primeira vez que me deparei com esse conceito. Eu estava fazendo um atendimento com um casal em crise, em que a esposa trazia para mim, entre outros problemas, a queixa de que seu marido não lhe inspirava confiança como líder da família. Seu pedido era um grito de socorro. Ela dizia: “Eu não quero tomar a frente dos rumos em meu lar, mas não tenho escolha, pois meu esposo é omisso, passivo e indiferente”.

Por mais que o marido tentasse se defender daquelas acusações que afetavam sua autoestima, o fato é que ele estava completamente perdido. No atendimento, procurei ajudá-los na descoberta de opções para um casamento mais saudável e, entre elas, surgiu a de fazerem um planejamento familiar. Quando começamos a elaborar o plano de ação, meus olhos se abriram para a urgência desse assunto em famílias.

Mas afinal, o que é planejamento familiar? O enfoque que desejo compartilhar nesse artigo pode levá-lo a uma compreensão diferente da que você conhece, aproximando-se de outro termo bastante conhecido e aplicado em organizações: planejamento estratégico. Nas perguntas que se seguem, quero me dirigir em especial aos maridos:

  • Em que direção você tem conduzido sua família?

  • Você tem planos bem definidos para os próximos quatro ou cinco anos em relação à sua família? Sua esposa e filhos têm conhecimento disso e compartilham da direção que você está dando?

  • Seu orçamento está orientado para atender aos objetivos do seu planejamento?

  • Sua agenda diária, semanal e mensal reflete o compromisso com os objetivos definidos para esse plano?

  • Com que frequência você senta com seu cônjuge e filhos (dependendo da idade) para avaliação, ajustes e prestação de contas de como estão caminhando no plano de ação?

Essa era a grande crise do casal, especialmente por parte da esposa, que me procurou para acompanhamento matrimonial. Por trás de tudo, havia essa inquietação. Maridos e pais, leiam com atenção: na família, esposa e filhos querem ser liderados por um homem que sabe de onde está saindo, para onde vai e como fará essa caminhada. Isso traz segurança, paz e sentido de realização. Muitos têm se casado sem estabelecer alicerces firmes. Outros, mesmo estabelecendo alicerces, não são capazes de terminar a construção.

Trabalhando com casais há mais de vinte anos, tenho percebido uma necessidade crescente de investir na capacitação de homens, para que saibam como corresponder à grandeza do casamento, liderando sua família com sabedoria, dando-lhe um sentido claro de direção. Aqui vão algumas dicas que podem te ajudar nesse desafio:

  • Identificar um mentor: O papel dessa pessoa será te ajudar, com boas perguntas, a entender sua realidade atual, levantar opções e elaborar um plano de ação. Faça uma lista com nomes de pessoas que você acha que poderão te mentorear por três a seis meses. Coloque os nomes em ordem de prioridade, levando em conta quem você prefere como mentor. Faça o convite à primeira pessoa da lista. Caso ela não aceite, passe para a segunda e assim por diante até encontrar seu mentor. Estabeleça uma agenda de encontros de pelo menos uma hora a cada quinze dias, podendo ser encontros em pessoa ou via Skype. Lembre-se que a iniciativa deve partir sempre de você, por ser a parte interessada. Seja responsável em cumprir os horários, tarefas, retornos. Mentores não tem tempo a perder e se sentem desmotivados em acompanhar quem não leva a sério as próprias necessidades. Um excelente livro para entender a relação entre mentor e mentoreado foi escrito por Howard e William Hendricks: “Como o Ferro Afia o Ferro” (Ed. Shedd). Havendo tempo, sugiro que faça essa leitura para melhor compreensão do processo de mentoria.

  • Ser interdependente com sua esposa: Há dois extremos com os quais se deve ter cuidado. O primeiro é ser dependente (precisando da ajuda do outro para tomar decisões e lidar com a vida). O segundo é a independência (tomando decisões e lidando com a vida sem precisar de ninguém). Aqui a orientação é para que você aja com interdependência (tendo condições de poder ser independente, mas escolhendo compartilhar sua vida e decisões com o outro). Veja sua esposa como alguém que caminha numa equipe com você. Converse, troque ideias, ouça bastante a perspectiva dela quanto aos pontos fortes e fracos do casamento, criação dos filhos, administração das finanças, sonhos para o futuro e família em geral. Tome decisões participativas com ela. Os filhos que já tiverem idade para entrar nesse processo também poderão se envolver. Isso fará uma enorme diferença na elaboração do planejamento que não será apenas seu, mas de todos, contando com o apoio e compromisso de cada um.

  • Entender a estrutura de um planejamento familiar: Em linhas gerais você deve inserir as seguintes partes:

  1. Visão: Para onde você deseja conduzir sua família nos próximos cinco anos? Responda a essa pergunta e encontrará uma visão. Seja realista com uma certa dose de coragem e fé.

  2. Missão: Complete: “Minha família existe para…”. Declare isso em duas ou três frases, buscando coerência com seus valores pessoais.

  3. Valores: Novamente, tente completar a frase: “Em nossa família valorizamos…”. Pense em pelo menos sete valores centrais que possam auxiliar na tomada de decisões dentro da família.

  4. Áreas estratégicas: Ao fazer o planejamento, sugiro que pense nas seguintes áreas: espiritualidade, educação, finanças, relacionamento, saúde, casa.

  5. Objetivos: Para cada área definida acima, estabeleça objetivos mensuráveis definindo o que pretende alcançar em cada ano.

  6. Estratégias: Isso diz respeito a que será feito para alcançar seus objetivos. Nessa etapa, é preciso ser prático e criativo.

“Família S/A”, escrito por Josué Campanhã (Ed. UP), é um bom recurso para ajudá-lo passo a passo nesse processo.

  • Realizar encontros com a família para avaliação: O ideal é que seja feito pelo menos uma vez por mês. Nesse encontro, pergunte: "Onde estamos caminhando bem e onde precisamos melhorar? Quais ajustes podemos fazer? Quem fará? Quando? Quanto? Como?".

  • Prestar contas: Em todo plano é preciso achar alguém para acompanhar, encorajar, perguntar, confrontar. Alguém que “pegue no nosso pé”. Seu mentor fará um pouco disso no início, mas depois será preciso ter alguém com quem você compartilhará seu plano de ação, e você pedirá a ela que faça esse papel. Sem isso, as chances do seu plano fracassar são muito grandes.

  • Celebrar: É gostoso chegando o fim do ano, reunir a família em um momento especial para confirmar os objetivos realizados, as metas alcançadas. É tempo de celebrar. Fiz isso uma vez com minha família viajando de Brasília ao Pará. Dentro do carro houve tempo de sobra para conversarmos, agradecermos, celebrarmos e renovarmos os sonhos para o ano seguinte.

Você está satisfeito com a atual situação de sua família? Espero que não. Quando ficamos satisfeitos, tendemos a parar de crescer. Alimente a ambição de querer muito mais para você, sua esposa e seus filhos. Quais são os seus sonhos? Você pode ter a casa que tanto deseja, fazer a faculdade que precisa, fazer um mestrado, crescer no trabalho, investir na profissionalização dos seus filhos, comprar o carro  que necessita, realizar uma excelente viagem de férias, investir na sua saúde, trocar os móveis que ficaram velhos, reformar seu imóvel, celebrar os vinte e cinco anos de casamento com estilo e bom gosto. Tudo isso é possível se houver um Planejamento Familiar. Daqui a cinco anos, sua família poderá ser bem melhor do que é hoje. Basta que você se dedique a fazer uma boa construção!

PSIC. DAVID ROCHA SALES