Simplificar para viver com qualidade

Um dia, meu filho Daniel chegou para mim no escritório que temos em nosso apartamento e me perguntou: “Pai, quando é que o senhor está realmente em casa?”. Estranhei a pergunta e franzi a testa por haver sido interrompido num momento em que precisava terminar uma apostila de treinamento e ainda responder a vários e-mails para dar seguimento a minha atividade profissional já atrasada. Em todo caso, curioso com a indagação, perguntei: “O que você quer dizer com isso, meu filho?...”. Foi a “gota d’agua” ele falar que não sabia quando eu estava em casa como pai, como um membro normal da família! Ele me via como um trabalhador, sempre correndo para fazer tudo e atender a todos. 

Bastante constrangido, ainda tentei me justificar, explicando que eu tinha que sustentar a família e que as coisas não estavam fáceis, que um dia ele entenderia; mas ele (felizmente) não recuou e continuou falando, a essa altura expressando seu coração em lágrimas.

Por trás das palavras do Daniel estava uma ferida paterna que eu sem querer estava causando. Havia carências, necessidades não supridas nele por mim como pai. O mesmo se aplicava às minhas duas filhas. Nesse dia a ficha caiu para mim e descobri que eu, sem querer, tornara-me um pai ausente. Eu me norteava por uma inverdade que dizia que o bom pai é aquele que não deixa faltar nada para seus filhos em termos materiais (casa, comida, roupa, material de estudos). Isso sem dúvida é importante, mas o que eu não havia percebido é que estava deixando faltar o amor fundamental expresso pelo toque, palavras de afirmação e, sobretudo, sendo um pai presente que vive o dia a dia do lar, celebrando, brincando, saindo para curtir a vida e a grande alegria de sermos família.

Excelente conversa! Fui incitado naquele momento a pedir perdão ao meu filho, arrepender-me e procurar reparar o mal que estava causando a todos em minha casa. Não foi nada fácil manter meu arrependimento! Depois dessa conversa, “pisei na bola” outras vezes e repeti os mesmos passos. Foi então que percebi que havia algo de mais sério por trás de tudo. Descobri que eu tinha uma vulnerabilidade para o ativismo e que isso me induzia à tirania do urgente e à inversão de valores. Descobri também que, para me sentir bem, eu queria sempre agradar pessoas e mostrar serviço. Em certo sentido, era como se meu valor dependesse do que eu fazia.

Você vive com qualidade de vida? E sua família? Sua agenda reflete o ritmo de alguém que dedica tempo para si mesmo, para a esposa e para os filhos, sem deixar que o trabalho interfira nessas prioridades? Se essa frase lhe causa algum incômodo, permita-me ser claro: seu trabalho, por mais necessário e importante que seja, não pode tomar o lugar da sua família! A triste realidade é que existem muitos pais que, além da saúde física, espiritual e emocional, estão perdendo, sem perceber, seus casamentos e seus filhos por inverterem essas prioridades. Em resumo, tenho aprendido que para viver com qualidade, é preciso:

  1. Ganhar o valor da simplicidade: Vida simples é uma disciplina em que aprendemos a viver uma vida desacelerada e descomplicada, organizando nosso tempo segundo prioridades sem deixar que sejamos enredados pelo ativismo e pelo consumismo. É colocar ordem no nosso mundo interior e exterior! É aprender com as aves e os lírios do campo.

  2. Estabelecer com clareza limites saudáveis: Entre outras verdades, isso significa saber o que você precisa parar de fazer para abrir espaço às coisas que de fato são indispensáveis. Saber quando dizer “sim” e “não”, com firmeza, sem se sentir culpado. Assumir o controle da sua vida e não se deixar roubar sua liberdade. Se suas prioridades estiverem bem definidas, ter a coragem de dizer “não” ao seu trabalho, para poder dizer "sim" ao tempo consigo mesmo; dizer “não” às pessoas - até aos amigos - para poder dizer “sim” à sua esposa e aos seus filhos!

  3. Firmar a sua identidade: Você não é o seu trabalho; portanto, não deve investir nele todas as suas energias e todo o seu tempo para encontrar sentido e significado para sua vida. Quem ainda não entendeu isso está vulnerável a viver pela compulsão, motivado a mostrar desempenho e chamar a atenção; servindo por obrigação, pelo medo de ser punido ou rejeitado. Esse estilo de vida nos leva inevitavelmente a inverter valores e prioridades. Por isso é importante estar seguro de si mesmo, de quem você é, dos seus valores centrais, da sua verdadeira identidade.

PSIC. DAVID ROCHA SALES

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